De olhos fechados

Pierre Charles, SJ*

oracao

Se refletirmos alguns instantes no que somos, não tardaremos a verificar que os momentos mais decisivos de nossa vida não são as horas em que falamos, nem tampouco aquelas em que agimos diante dos homens. As horas mais importantes de nossa vida são justamente as mais silenciosas.

Porque é no silêncio da alma que se elaboram as resoluções aparentemente mais repentinas, e é em segredo que se continuam e consumam as desagregações e as ruínas, e que se fortificam também, lentamente, as fidelidades que se mostram inalteráveis na provação. O que se vê nada é, ao lado do que permanece escondido em nós.

Sabemos que há no fundo de toda alma humana um refúgio que nenhuma afeição pode entreabrir, nenhuma violência forçar. Conselhos, ameaças e ordens podem chover sobre esse abrigo interior; jamais conseguirá alguém infiltrar-se sorrateiramente nesse retiro que nos pertence exclusivamente a nós, ou nele penetrar à viva força. Ninguém pode querer em nosso lugar, amar por nós ou viver em nosso nome. A responsabilidade do que quer que façamos é nossa, e só nossa; apesar das aparências, vivemos sós, morremos sós, pecamos sós, e só a nós pertence a iniciativa do arrependimento.

E, todavia, isto não é inteiramente verdadeiro. No momento em que penetramos no deserto interior, verificamos que ele é habitado por uma presença invisível; no momento em que nos fechamos no cenáculo íntimo, vemo-nos repentinamente em face de alguém a quem nenhuma porta fechada pode impedir a entrada, pois onde quer que se ache está sempre em sua casa; no momento em que nos acreditamos sós, descobrimos que a solidão é impossível, e que na origem de nossa consciência, no ponto de partida de nossas decisões, aquele que nos criou e nos redimiu se interessa por nós, vigia, dirige e colabora conosco. Somos invadidos, ocupados, não podemos fugir a esse Deus cujo verdadeiro nome é o Inevitável; e quando fechamos os olhos para não ver, não o suprimimos, do mesmo modo que o sono não faz cessar a tempestade.

Por isso o cristão que ora recolhe-se, isto é, encontra-se a si mesmo, desliga-se de todos os mestres fúteis, de todas as mãos estranhas, de todos os desejos tenazes, que o dividem e impedem de ser o que é.

Olhos fechados – Para se recolher, fecha os olhos. Será para nada ver, como fazem os tímidos e os hipócritas? Não, mas para ver tudo, sem ser fascinado por coisa alguma. Imaginamos que o verdadeiro céu é o céu dos dias luminosos. Não, o verdadeiro céu é o céu da noite, e a claridade o esconde logo que brilha o sol. Fechemos os olhos para contemplar na noite pacífica o céu de nossa alma, constelado de luzes da graça.

O velho gesto tradicional das mãos postas e dos olhos fechados tem um sentido profundo, que os distraídos ignoram. Olhos fechados! Para orar, basta isso, se as palavras não acorrem aos vossos lábios e se não achais nada a dizer àquele que é a Verdade. Olhos bem fechados, como os daqueles que recebem o anúncio de alegrias inesperadas, cuja amplitude ultrapassa as maiores esperanças; olhos bem fechados, como os daqueles que ouvem a notícia de infortúnios demasiado grandes para lágrimas e procuram no último recesso da alma uma certeza a que se apegar; olhos bem fechados, como os dos servos fiéis, dos vossos servos, ó meu Deus, que dormem na paz de seu último sono, envolvidos no vosso perdão redentor… Todos esses conservam os olhos fechados, porque não querem saber da luz crua do sol, e porque já nada significa para eles o brilho falaz das coisas.

Dai-me viver assim, de olhos fechados, num recolhimento isento de ignorância e de inércia, mas penetrado de concentração ardente e de luz interior. Porque é justamente isso que se passa nos refolhos de minha alma, que é vossa obra por excelência; e minhas horas silenciosas são aquelas em que falamos, os dois, olhando-nos face a face. Nunca entrei em mim, sem vos encontrar sentado à minha porta. É na verdade em mim que deve operar-se a vossa redenção, se sou destinado a não vos permanecer estranho para sempre.

Tudo em mim vos lembra, tudo me fala de vós, desde que eu consinta em considerar a minha vida como uma conquista de meu Deus, desde que busque em mim os traços de vosso amor e as relíquias de vossa Encarnação. Vede: tenho nomes que só a vós pertencem; sou uma coisa santa, por causa de tudo o que abençoastes e consagrastes em mim.

Infeliz de mim, que sou tantas vezes expulso de mim mesmo por devaneios estúpidos, preocupações, cóleras e pesares! Por que passo a maior parte de meus dias numa espécie de sonambulismo estranho, sem que meus gestos sejam verdadeiramente meus, e sem que minhas conversas contenham mais que palavras?

Não vivo em profundidade. Meu cenáculo está profanado. Introduzi nômades em vossa morada; e o infiel acampou em Sião. Só vós podeis repelir o invasor e restituir-me a mim mesmo no recolhimento pacífico.

Olhos fechados – Não deveria eu habituar-me ao gesto que será o último de minha vida, e para não faltar aos divinos encontros, não deveria vigiar os caminhos de minha alma e só guiar-me pela luz do Cordeiro? O recolhimento ensinar-me-ia a estimar a fé, curar-me-ia de meus frenesis impotentes e eu fecharia os olhos como aqueles que já não duvidam e consentem em morrer.

Apressai em mim o momento da paz. É preciso que ela venha na sua hora, como as espigas que amadurecem todas no mesmo dia em toda a extensão da seara. Só estarei tranquilo quando eu compreender que nada me falta de tudo aquilo que devo ter, quando meus desejos não forem mais vastos que a vossa vontade, e meus tesouros cumularem todos os meus desejos.

No dia em que não possuir nem ver outra coisa senão vós, então compreenderei – de olhos fechados – que é muito bom ser vosso filho.

* Texto extraído do livro A oração de toda hora, do jesuíta belga Pierre Charles (1883-1954). Editora Flamboyant, 1962.

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