Alice Munro: uma graça silenciosa

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Quinta-feira passada, dia 10/10, foi anunciado o nome do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2013: a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos de idade. Muito famosa em seu país, “sua prosa realista usa temas do cotidiano para abordar a condição humana, tratando do amor e da morte. Por sua clareza e seu realismo psicológico, muitos críticos a consideram “a Tchekhov do Canadá” “. Há poucos anos, li um artigo incrível a respeito da autora – daí o título desta postagem -, mas ainda não li nenhum livro seu. A Deutsche Welle publicou uma excelente matéria a respeito da premiação, com esta citação da autora:

Não existem assuntos grandes e pequenos. As grandes coisas, os males que existem no mundo têm uma relação direta com o mal que existe ao redor de uma mesa de jantar quando as pessoas estão agindo umas contra as outras.

Abaixo, um breve trecho do artigo a que acima me referi, escrito pela dramaturga Jeanne Murray Walker:

“A primeira vez que abri um livro de contos de Munro, fiquei chocada com a diferença entre ela e os autores que estudara na graduação. Na ficção de Munro, encontrei uma grande riqueza de cheiros, imagens e sons conhecidos meus. Além de acontecer em cenários familiares como rinques de patinação e salas de aula, as histórias estavam repletas de cheiro de desinfetantes, sabor de cerveja caseira, toques de peixes escorregadios escapulindo do barco e mergulhando na água. Comecei a ver que um mundo tão cheio de particularidades só podia ser fruto de milagrosa atenção e cuidado. Lembrei-me do poema de Richard Wilbur, “O amor nos chama para as coisas deste mundo”. […] Como enfatizou Robert Browning, muitas vezes não vemos na vida o que antes não vimos na arte” (In: J. C. Schaap & P. Yancey, Muito mais que palavras. São Paulo: Vida, 2005, p. 299-300).

Finalmente: vejam que artigo emocionante a economista e professora da PUC-RJ Monica de Bolle escreveu para O Globo, sobre Alice Munro!

No mundo contemporâneo, poupam-se tempo e palavras. Redes sociais, Twitter, blogs. A proliferação dos meios digitais de comunicação obriga os escritores, amadores ou não, a resumir em poucas palavras uma ideia ou uma reflexão. Isso se tornou um grande desafio ao conteúdo da mensagem. Frequentemente, a concisão resvala na superficialidade, ou, pior, nas análises rasas revestidas de polêmica inútil. Desafortunadamente, a economia de palavras vem acompanhada da falta de profundidade de pensamento e de conteúdo. Mas há esperança. Anton Tchekov e Jorge Luis Borges são dois exemplos distantes no tempo e no espaço que mostraram o poder inequívoco da concisão, a verdadeira concisão, aquela que não pode de modo algum ser confundida com a superficialidade. Esse poder não distingue gêneros, não é prerrogativa do sexo masculino.

A capacidade de resumir, em poucas páginas e com uma narrativa cativante, as angústias, as aflições, os dilemas, os turbilhões que podem se formar sob a aparente placidez da vida cotidiana é para poucos. Quando o talento da concisão surge, ele é arrebatador. O conto é o terreno da concisão. Todavia, ele é um gênero literário pouco prestigiado. Ou melhor, era. A Academia Sueca acaba de conceder o Prêmio Nobel de literatura, instituído por Alfred Nobel em 1901, à escritora canadense Alice Munro, citando-a como uma “mestra do conto contemporâneo” (“a master of the contemporary short story”). Alice Munro é a 13ª mulher a receber o prêmio nos 102 anos de sua existência.

Apesar de ser uma escritora de contos, Alice Munro não é minimalista. Suas histórias contêm um mundo de nuances, reflexões, ironias e paradoxos. A sutileza, a nuance, o infinito em poucas páginas ou palavras são uma raridade no mundo de hoje. É mais fácil perverter a concisão para provocar polêmicas ou para reciclar ideias antiquadas travestidas de novidade.

No debate econômico e político brasileiro, a polêmica barata e a reciclagem de argumentos, contra ou a favor da política econômica do governo, de “esquerda” ou de “direita”, abundam. Nessa falsa concisão se perde a complexidade dos temas, a textura intrincada de questões como a convivência da melhoria da qualidade de vida da população, alcançada nos últimos anos, com uma economia que não cresce assolada por uma inflação que não cede. Parabéns à Academia Sueca. Não somente por ter concedido o Prêmio Nobel de Literatura a uma talentosíssima mulher de 82 anos, mas por ter resgatado a importância de ser simultaneamente conciso e profundo. Ou, no caso, concisa e profunda.

Fonte: (O Globo, 11.10.2013)

 

Frankfurt: entre o tempo e a eternidade

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Esta semana, na abertura da maior e mais antiga Feira do Livro do mundo, na qual o Brasil é o país homenageado, o escritor brasileiro Luiz Ruffato fez um discurso muito duro (divulgado pelo escritor no Google docs) denunciando as várias mazelas históricas do nosso país. Sem entrar no mérito das questões levantadas por ele – ou da conveniência da ocasião -, não tenho como deixar de tecer um comentário sobre a conclusão de sua fala:

Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser
unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Ora, o destino último e a felicidade última de cada ser humano jamais poderão ser encontrados unicamente na Terra, porque nossas raízes estão fincadas no transcendente, ie, na eternidade. Só quem reconhece essa realidade tem condições, de fato, de alcançar a felicidade – AQUI E AGORA. A literatura, em sua melhor forma, aponta para isso.

(A propósito: como será a literatura produzida pelo Luiz Ruffato, hein? Vou dar uma olhada…)

 

 

Poesia para alegrar o dia – 2

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Em troca de folhas velhas

A terra dá flores e pão

Dá tu em troca de ofensas

Bondade, amor e perdão

 

Semeia o amor sem veres

O terreno onde cair

Onde menos o esperes

Talvez o vejas florir

 

Quem sabe não há um tesouro

Sob a terra que pisamos?

Podem valer mais que nós

Aqueles que desprezamos

 

Importa saber falar

Mas também saber ouvir

Nada pode aproveitar

Quem não sabe discernir

 

Ouve bem o que te digo

Se não queres aborrecer:

Na vida do teu amigo

Não te vás intrometer

 

Quem aconselha aborrece,

Sempre no mundo se ouviu

Ninguém quer ou agradece

Conselho que não pediu

 

Dignidade não é ouro,

Nem é tampouco poder

Dignidade é um tesouro

Que o mais pobre pode ter

 

Não digas mal de ninguém

Ainda que tenhas razão:

Pois quem te ouvir logo tem

De ti má opinião

 

Mal por mal, antes ser escravo

Do coração e errar,

Que ser escravo da razão

E sem amor acertar

 

Ter saudade é ter presente

Um bem que nos pertenceu

E, embora de nós ausente,

De todo não se perdeu

 

Julgo que a alma será

Esta chama fugidia

Que, ao fitar outros olhos,

O nosso olhar irradia

 

O amor é como o sol,

Mesmo encoberto alumia

Nunca disse que te amava

E toda gente o sabia…

 

Traz a vida separados

Dois corações bem unidos,

E outros aborrecidos

De má vontade abraçados

 

Ninguém pode ser juiz

Nas contendas do amor:

O coração nunca diz

O que tem no interior

 

O amor e a doença

São conforme o temperamento:

No nome não há diferença,

É diferente o sofrimento

 

E hoje em trovas singelas

Minhas mágoas vou dizendo;

Menos sofrendo em dizê-las

Do que em silêncio ir sofrendo

 

Só o amor tem poder

De dois corações juntar

Contudo, sempre hão de ter

De um ao outro perdoar

 

Toda casa deve ser

Um santuário de amor:

Sagrada para quem lá vive,

Exemplo de quem lá for

 

Na escala dos amores,

Ao alto o amor de mãe

Se todos têm valor,

Valor como ele não tem

 

Faltava a Deus lá no céu

O doce nome de mãe

Para o ter, Jesus nasceu

Da Virgem pura em Belém

 

Se hoje tiveres motivo

Para rir e estar contente

Deixa passado e futuro,

Goza apenas o presente

 

Uma trova é pequenina

E encerra, quando sentida,

O pulsar do coração,

Toda a beleza da vida

 

Em quatro versos somente

Canta a alegria e a dor,

Cantando sentidamente

A saudade e o amor

 

Sei que os meus versos são velhos

De séculos – deixai-os ser

O sol é bem mais antigo

E não deixa de nascer…

 

Ana Rolão Preto M. Abano – CarumaLisboa, 1958

(Foto: Serra da Gardunha, Portugal – terra natal da autora)

ALERTA: A péssima filosofia da educação de Maria Lúcia de Arruda Aranha

Há cerca de 10 anos, em 2003 ou 2004, ainda nos tempos da faculdade, tive que fazer um trabalho para uma matéria da Licenciatura, usando o livro abaixo:

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A 1ª edição, que eu utilizei, é de 1989. Logo no primeiro capítulo, a autora – que em 1971 já era professora de Filosofia, segundo esta matéria da Agência Brasil – afirma o seguinte, no item 1.4, “Cultura e socialização”:

O processo de socialização se inicia por meio da ação exercida pela comunidade sobre os homens.[…] É possível dizer então que a condição humana não resulta da realização hipotética de instintos, mas da assimilação de modelos sociais: o ser do homem se faz mediado pela cultura. […] Por isso, a condição humana não apresenta características universais e eternas, pois variam as maneiras pelas quais os homens respondem socialmente aos desafios […].

Ora, como é possível a condição humana não apresentar “…características universais e eternas”? Pois são justamente elas que permitem a imensa variedade de maneiras pelas quais os homens, de todas as culturas e de todos os tempos, respondem aos desafios que a existência oferece, sempre de maneira criativa! Então, a criatividade é uma característica universal e eterna da condição humana, ao contrário da “condição animal” dos irracionais, que só agem movidos pelo instinto. E eis aqui mais uma característica universal e eterna: a racionalidade, a capacidade de fazer perguntas (os porquês e para quês etc).

Da mesma forma, a condição humana não resulta da “… assimilação de modelos sociais”: ela é justamente a “condição” que permite aos seres humanos assimilarem os modelos sociais, transformando-os – e sendo transformados – pela mediação da cultura. A condição humana necessariamente antecede os modelos sociais.

Logo depois, no tópico 1.5 (“Sociedade e indivíduo”), a autora escreve:

A transformação produzida pelo homem pode ser caracterizada como um ato de liberdade, entendendo-se liberdade não como alguma coisa que é dada ao homem, mas como o resultado da sua capacidade de compreender o mundo, projetar mudanças e realizar projetos.

Ora, a liberdade não é o resultado da capacidade do homem de compreender o mundo e transformá-lo, mas é causa dessa capacidade. A liberdade é “dada” ao homem, isto é, ela é inata a todos os seres humanos; é mais uma das características universais e eternas da condição humana.

—–

Esse foi só o primeiro capítulo. Não li o restante da obra, apenas folheei. Sem dúvida, há de haver muitas coisas boas e úteis em todo o livro e – muito provavelmente – problemas semelhantes a esse. Graves, portanto!

Em 2006 saiu uma 3ª edição revista e aumentada da obra, com grandes alterações em sua estrutura. O primeiro capítulo foi deslocado para o meio do livro, e pelo menos uma das citações acima permanece, sem nenhuma modificação. (Estou me perguntando se valeria a pena ler atentamente toda a obra para fazer as eventuais correções. Bem, se alguém quiser me pagar para isso… Aceito!)

Dedico esta postagem a todos os professores, estudantes e profissionais de Pedagogia e de ciências humanas, no Brasil e em todos os países de língua portuguesa. Afinal, a nossa Educação TEM QUE MELHORAR!!

Quanto à professora Maria Lúcia: espero que esteja bem e, caso chegue ao seu conhecimento esta crítica, que lhe sirva para reflexão e aprimoramento pessoal e profissional.

(Observação: o título do post é propositalmente apelativo, apenas para chamar mais a atenção)

Viva John R. R. Tolkien!

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Ontem foi o 40º aniversário de falecimento do grandioso escritor inglês John R. R. Tolkien. Para quem nunca leu nada dele: olhem só estes breves trechos de seu livro “O Silmarillion”:

A esposa de Aulë é Yavanna, a Provedora de Frutos. Ela ama todas as coisas que crescem na terra; e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas ao musgo sobre as pedras ou aos seres pequenos e secretos que vivem no solo. Em reverência, Yavanna vem logo após Varda entre as Rainhas dos Valar. Na forma de mulher, ela é alta e se traja de verde; mas às vezes assume outras formas. Há quem a tenha visto em pé como uma árvore sob o firmamento, coroada pelo Sol; e, de todos os seus galhos, derramava-se um orvalho dourado sobre a terra estéril, que se tornava verdejante com o trigo; mas as raízes das árvores estavam nas águas de Ulmo, e os ventos de Manwë falavam nas suas folhas. Kementári, Rainha da Terra, é seu sobrenome na língua eldarin.

……

Terrível foi essa viagem para o sul. Íngremes eram os precipícios das Ered Gorgoroth, e a seus pés havia sombras ali dispostas antes do surgimento da Lua. Mais além, ficavam os ermos de Dungortheb, onde os feitiços de Sauron e o poder de Melian se enfrentavam, e o horror e a loucura andavam à solta. Ali moravam aranhas da cruel raça de Ungoliant, tecendo suas teias invisíveis, nas quais todos os seres vivos eram apanhados; e monstros por ali vagavam, nascidos nas longas trevas anteriores ao Sol, caçando, silenciosos, com seus muitos olhos. Nenhum alimento para elfos ou homens havia naquela terra assombrada, apenas a morte. Essa viagem não é considerada o menor dentre os grandes feitos de Beren; mas ele não falava a ninguém a respeito dela, para que o horror não voltasse à sua mente. E ninguém sabe como ele encontrou um caminho e assim chegou, por trilhas nas quais nenhum homem ou elfo jamais ousara pisar, às fronteiras de Doriath. E atravessou os labirintos que Melian havia criado em torno do reino de Thingol, exatamente como ela própria previra; pois um grande destino lhe estava reservado.

Merecem destaque estas matérias publicadas ontem:

http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2013/09/morte-de-j-r-r-tolkien-autor-de-o-senhor-dos-aneis-completa-40-anos.html

http://tolkienbrasil.com/artigos/gerais/quarenta-anos-apos-j-r-r-tolkien/

Viva Tolkien, e seus felizes leitores! 🙂

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Maílson da Nóbrega: muito além do feijão com arroz

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Terminei de ler, mês passado, a autobiografia do ex-Ministro da Fazenda do final do governo do Presidente José Sarney (1985-1990), Maílson da Nóbrega, publicada em 2010: que grande lição de vida! Leitura extremamente agradável e instrutiva, recomendo-a todos, sem exceção. Transcrevo aqui estes breves trechos:

É o relato da vida de um filho de família humilde do interior da Paraíba que começou a trabalhar antes de completar dez anos de idade, como descastanhador de caju e vendedor ambulante, dos seus esforços para estudar e aprender, […] tudo conduzindo à honra de servir ao seu país em momentos dramáticos e se tornar um formador de opinião. (p. 16)

Não lembro de ter tido ambições profissionais quando criança. Era um assunto muito pouco recorrente. […] Ninguém falava disso, nem eu, e não sei por que , em dado momento, botei na cabeça que queria estudar. Imagino que tenha me influenciado uma crença local, de que quem tem cabeça grande é inteligente. E tinha quem me chamasse de Cabeção. O seu Lídio, o agente telegrafista dos Correios, preferia um eufemismo: me chamava de Rui Barbosa. (p. 46)

Mesmo os piores problemas trazem consequências positivas, se tivermos a frieza de olhá-los de frente, perceber suas causas e enfrentá-las. As sucessivas crises por que o Brasil passava serviram para revelar os gravíssimos problemas institucionais das finanças públicas federais e de seus mecanismos […]. O Brasil havia construído mecanismos de interrelacionamento entre o Tesouro, o Banco do Brasil e o Banco Central que equivaliam ao milagre da multiplicação dos pães, com a vantagem, em relação ao feito de Jesus Cristo, de que o processo podia ser repetido todos os anos. Mas os mais pobres, que no fundo pagavam grande parte dessa conta, via inflação, não podiam sequer entrar na fila do pãozinho. (p. 296-300)

No dia seguinte [à posse como Ministro da Fazenda, em 6 de janeiro de 1988], o jornal O Estado de São Paulo estampava em primeira página: “Novo ministro anuncia política feijão com arroz”. Que mancada! Que desastre! Simplório demais. Imaginei até acadêmicos falando: “além de ser um burocrata, não tem imaginação”. Eu arquitetava maneiras de consertar o passo em falso quando recebi uns três telefonemas de congratulações em relação ao anúncio: “Que sacada sensacional!”, disse um. “Parabéns”, disseram outros. A expressão se tornaria sinônimo da nossa política na Fazenda. (p. 389)

Poesia para alegrar o dia!

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Quatro versos, quatro braços,

Como a cruz do Redentor,

As trovas são o calvário

Da alma do trovador.

 

Calvário que nos atrai,

Que nos prende e faz sofrer…

Pura fonte que me oferece

Motivo para viver.

 

A dor é cadinho aonde

A alma se fortifica

E, pela graça de Deus,

Sendo boa, melhor fica.

 

Numa vida quantas vidas

Em sofrimentos e ais!

Só quem não ama deveras

Vive a sua e nada mais.

 

Ser trovador é amar,

Amar sem conta ou medida,

E ter voz para cantar

Toda a beleza da vida.

 

Por sua sensibilidade

O poeta vibra tanto

Em requintes de bondade,

Que é mais que poeta – é santo.

 

Ser-se poeta é abrir

O coração par em par

E enche-lo tanto de amor

Que se não possa fechar.

 

As tuas palavras são

O que semeias na vida.

Não deixes cair da mão

Semente mal escolhida…

 

Não digas toda a verdade

Se for triste e for grosseira.

É melhor ter caridade

Que ser muito verdadeira.

 

Diz a verdade, não mintas,

Eu digo com convicção.

Mas vê lá, toma cuidado,

Não ofendas teu irmão…

 

Como hei de conciliar

Coisas tão desencontradas,

Se há mentiras piedosas,

Verdades envenenadas?

 

Que nos valha a consciência

E, sobretudo, o amor.

Iludir para bom fim

Também tem o seu valor…

 

Nos caminhos desta vida

A joeirar, gira… gira…

Nunca vi limpa a verdade

Da poeira da mentira.

 

Neste nosso coração

Tão fraco (e tão indomável…),

Há tanta contradição!

Tanto mistério insondável!

 

Tanta gente que imagina

Saber o que é caridade

E não vê, não descortina,

A seu lado infelicidade…

 

Tantas leis! Uma bastava

Pra ser feliz o mundo inteiro:

A que entre os homens se firmasse

Amor puro e verdadeiro.

 

Todos se queixam do mundo

Aflitos, erguendo a voz!

Mas a culpa é de nós todos,

Porque o mundo somos nós.

 

Quase toda a desventura

Vem disto, repara bem:

De querer o que não existe,

Desprezar o que se tem.

 

Na vida a maior canseira

A gente suporta bem

Se houver alguém que nos queira

E a gente lhe quiser bem.

 

(Ana Rolão P. M. Abano. Caruma. Lisboa, 1958)

Janaina Paschoal: a importância de dizer “Não”

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Confesso que cheguei a ficar comovido com a sensibilidade e a honestidade da professora de Direito Penal da USP Janaina Paschoal, em sua reflexão sobre as manifestações iniciadas pelo Movimento Passe Livre, que acabaram tomando conta do país. Faço minhas suas palavras: “Nestes tempos em que falar em Deus é crime, peço a Deus que eu esteja errada e que, realmente, não tenha alcance para perceber a importância e a beleza deste momento histórico”.

Desde que ingressei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1992, intriga-me ouvir que a USP e, por conseguinte, o Largo, constitui território livre. Sempre tentei compreender o que essa liberdade significaria.

Ao compor a diretoria do Centro Acadêmico “XI de Agosto”, já comecei a questionar esse tal território livre, buscando modificar o trote, muitas vezes, humilhante e até perigoso, como ocorria nas Carruagens de Fogo (“brincadeira” em que o calouro era obrigado a beber continuamente e a correr no chão molhado, ao som da música clássica de idêntico nome).

Também me voltei contra o “Pendura”. Eu, que nunca fui comunista, nem lulista nem petista, confesso, não me conformava com o fato de jovens, majoritariamente de classe média, se sentirem no direito de entrar em um restaurante e dizer ao dono, com muita naturalidade, que simplesmente não iriam pagar. E ai da autoridade que lhes dissesse o contrário! Cheguei a participar do tal “Pendura”, mas, imediatamente, senti que aquilo não era direito.

Em 1997, quando iniciei o doutoramento e comecei a auxiliar os professores na graduação, já conversava com os alunos sobre o sentido da “Peruada”. Por que, afinal, eles não podiam fazer seu Carnaval sem beber até cair? À resposta pronta de que se tratava de tradição, instintivamente, passei a responder que tradição também se modifica. Até hoje, meus alunos não acreditam que nunca participei da “Peruada” e, às vezes, me “acusam” de ser evangélica.

Já professora concursada, nas últimas aulas do curso, normalmente, dedico um tempo perguntando aos alunos o que eles querem para as suas vidas. Nessa era dos textos curtos, das mensagens cifradas, da informação fácil, é muito difícil conseguir que eles leiam um artigo de dez páginas, em português.

Há algumas semanas, quando uma de minhas turmas não leu um projeto de lei de três páginas, eu os avisei sobre o perigo de serem manipulados, pois quem não lê, quem não conhece, acredita apenas no mensageiro.

Costumo dizer aos meus alunos que o estudante que realmente crê estar em um território livre será o promotor que acredita que pode denunciar o outro por dirigir embriagado, mas ele próprio está autorizado a beber e baixar um aplicativo da internet para saber onde estão os bloqueios policiais. Esse aluno será o juiz que acredita que ganha pouco e tem direito de viajar para o Nordeste sob o patrocínio de empresas cujas causas julga, e assim por diante.

Quando alguns alunos invadiram e depredaram a Reitoria, e grande parte dos professores achou natural aquele espetáculo de liberdade de expressão, eu escrevi para a Folha de S. Paulo o texto intitulado “Quem é elitista”, apontando que esse tipo de comportamento é decorrente da certeza de que, realmente, a universidade constitui um território livre e que apenas os pobres, que precisam trabalhar e estudar à noite e que têm os seus salários descontados para pagar os estudos do pessoal da USP, podem ser abordados por estarem fumando maconha na esquina.

É interessante. Ao mesmo tempo em que os intelectuais denunciam que o Direito Penal serve apenas para punir pobre, contraditoriamente, aceitam que só pobres sejam penalizados. A lei não diz respeito a eles próprios. Coincidência ou não, os atuais protestos se iniciaram após a rejeição da denúncia referente à invasão da Reitoria da USP.

Pois bem, quando começaram as manifestações, e os discursos dos líderes surgiram, imediatamente, identifiquei o dogma do território livre.

Foram muitas as notícias de violências e abusos, e eu tive relatos de pessoas que estavam, por exemplo, no Shopping Paulista e foram surpreendidas por rapazes encapuzados, que exigiam o fechamento das lojas, sob o brado de que estavam “tocando o terror”.

Chamou minha atenção o fato de uma das pessoas que fizeram tais relatos ter dito que logo percebeu que não seriam criminosos, pois eram pessoas bem vestidas. Para alguém que estuda Direito Penal, há anos, esse tipo de frase dói, pois é a confirmação de que a sociedade não quer mesmo punir atos, mas estereótipos.

Se a garotada da periferia tivesse tomado a Paulista, ninguém acharia exagero a Polícia Militar tomar providências. Percebe-se que mesmo quem estava indignado contemporizava, pois, afinal, amanhã, pode ser seu filho. De novo, o dogma do território livre.

Na véspera do protesto em que a Polícia Militar reagiu, conversei com uma senhora, que julgo esclarecida, e fiquei surpresa com seu encantamento frente ao brilho do neto, que aderira às manifestações a fim de lutar pelos mais necessitados.

Ontem, durante uma reunião com amigos, quando todos cobravam apoio ao movimento, tomei a liberdade de dizer que não acredito ser esse o melhor caminho.

Apesar de destacar estar convencida de que houve excessos da polícia, sobretudo no caso do tiro mirado no olho da jovem jornalista, situação que caracteriza lesão corporal dolosa, de natureza grave, ponderei que devemos ser cautelosos, pois nem toda prisão foi descabida, e os manifestantes podem estar servindo de massa de manobra.

A reação dos colegas foi surpreendente. Alguns, lembrando a importância dos jovens em todas as mudanças sociais, destacando sua própria luta contra a ditadura, chegaram a se emocionar, falando de seus próprios filhos como grandes políticos, verdadeiros heróis, pessoas esclarecidas, apesar dos vinte e poucos anos.

Sendo uma criatura insuportavelmente crítica, sobretudo comigo, passei a noite pensando se não teria sido injusta com os manifestantes e insensível com os colegas. Afinal, se todos estão tocados com a beleza deste momento, parece razoável que os pais estejam orgulhosos da lucidez de suas crias.

Mas essa experiência, sofrida, de magoar os colegas, aos quais, nesta oportunidade, peço desculpas, foi muito importante para eu poder ver algo que ainda não estava claro.

As gerações passadas também tinham esse sentimento arraigado de território livre, de que a lei vale apenas para os outros e não para os iluminados da USP. No entanto, no passado, havia o contraponto de pais que impunham limites; pais que diziam mais NÃOs do que SIMs; pais que ensinavam os deveres antes de falar sobre os direitos.

O fenômeno que nos toma de assalto é preocupante. Une-se o dogma do território livre com a geração “construtivismo”.

Chegam à idade adulta os garotos que nunca ouviram um NÃO, os garotos que sempre puderam se expressar, ainda que agredindo o coleguinha, ou chutando a perna de um adulto em uma loja.

Chegam à idade adulta os garotos cujos pais vão à escola questionar por quais motivos os professores não valorizam a genialidade de seus filhos. Pais que realmente acreditam que seus filhos, aos vinte anos, são verdadeiras sumidades e têm futuro por possuírem vários seguidores no Twitter.

Nossos iluminados já avisaram que, se a tarifa de ônibus não baixar, vão continuar a parar São Paulo. Quem vai lhes dizer não? A Polícia não pode, nem quando estão queimando carros e constrangendo pessoas. Os professores, salvo raras exceções, incentivam, em um saudosismo irresponsável, para dizer o mínimo. E os pais, entorpecidos pela necessidade de constatar o sucesso da educação conferida, acham tudo muito lindo e vão às ruas acompanhar a prole, pedindo algo indefinido e impalpável.

Nestes tempos em que falar em Deus é crime, peço a Deus que eu esteja errada e que, realmente, não tenha alcance para perceber a importância e a beleza deste momento histórico.

Há duas décadas, quando o presidente do Centro Acadêmico “XI de Agosto” me destacou para falar algumas palavras para recepcionar Lindbergh Farias, pouco antes de sairmos em passeata pela derrubada de Collor, eu peguei o microfone e disse: “Nós vamos a essa passeata porque a causa é justa, mas sua cara bonita não me engana”. Por pouco não fui destituída do cargo. Creio que meus colegas de chapa nunca me perdoaram.

Há alguns anos, durante uma cerimônia em que todos reverenciavam o então ministro da justiça, Márcio Thomaz Bastos, eu o questionei sobre a quebra do sigilo do caseiro Francenildo. Cortaram-me a palavra e, até hoje, há quem não me cumprimente direito pela absurda falta de sensibilidade e educação.

A maior parte dessas pessoas apoia e estimula os atuais protestos e propala que o Mensalão não passou de uma ficção.

Tenho enviado comentários para a Imprensa, dizendo que os grupos que estão estimulando esses jovens a irem para as ruas estão torcendo muito para aparecer um cadáver em São Paulo, pois é só disso que precisam para tentar tomar também o estado.

Eu, por amar todos os meus alunos, os que concordam e os que não concordam comigo, estou bastante preocupada com essas forças ocultas, que manipulam nossos jovens marxistas de twitter.

Quando digo isso, costumo ouvir, mais uma vez, que estou fora da realidade, que é o PT que está na berlinda. Afinal, os protestos não estão apenas em São Paulo, estão no país inteiro.

É verdade, mas tem alguém, que dialoga muito bem com as massas, que precisa de um argumento palatável para voltar em 2014. E, segundo consta, funcionários da Presidência da República, subordinados a Gilberto Carvalho, foram organizadores e fomentadores do protesto. Não é a oposição que Dilma deve temer. A oposição simplesmente não existe. Apenas as cobras que cria no próprio Palácio, ou das quais não pode se livrar, é que, no futuro próximo, têm condições de picá-la.

Algumas pessoas me perguntam como posso ser liberal em alguns aspectos e conservadora em outros. Em regra, quando recebo esse tipo de questionamento, procuro compreender o que o interlocutor entende por “conservador” e por “liberal”.

Não sei como etiquetar, mas acredito que todo educador, seja o de casa, seja o da escola, deve mostrar ao pupilo que existem direitos e existem deveres. E que ninguém pode tudo. Talvez o que esteja prejudicando o país seja justamente esse sentimento generalizado de território livre. Os manifestantes de hoje podem ser os políticos de amanhã. Se não lhes dissermos “não” agora, como impor limites no futuro?

Talvez eu seja apenas uma canceriana pouco romântica. Talvez esteja velha demais para perceber a grandeza dessa novidade que invade o país. Tomara!

Mas esses 21 de USP e quase 15 de docência me permitem afirmar que são jovens muito promissores, mas ainda são garotos de vinte anos, que não estão acostumados a ouvir um “não”.

Se não posso pedir razoabilidade aos pais e aos professores, peço, encarecidamente, à imprensa que tenha cautela ao estimulá-los, pois não temos instrumentos para fazê-los parar. Teremos que, pacientemente, aguardar que eles se cansem do que pode ser uma grande brincadeira.

São Paulo, 18 de junho de 2013

Fonte: http://abr.ai/17ki7an

Marco Civil da internet: mais um ensaio para o Big Brother?

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Achei muito esclarecedor o artigo abaixo, sobre o tema em questão, escrito pelo Dr. Uziel Santana, especialista e mestre em Direito. Transcrevo o trecho mais relevante:

2. O MARCO CIVIL DA INTERNET
Em “Um Cristão do Direito num País torto” (VINACC, 2012) já havíamos analisado algumas questões referentes ao PL nº 2.126/2006 que trata do Marco Civil da Internet. Neste sentido, afirmamos que:

“… o Estado Petista-Lulista está para propor um PL que visa a instituir um marco civil regulatório para a internet (a minuta dele está no sítio aberto http://culturadigital.br/marcocivil/). A proposta inicial do Governo Lula (feita no âmbito da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça), pasmem, vocês, é: sem autorização judicial, poder se ‘tornar indisponível’ um determinado conteúdo que o governo ou qualquer instituição ou pessoa não concorde com o seu teor. Ou seja: por exemplo, um artigo como esse que estamos escrevendo, poderia ser ‘deletado’ do servidor que o publique, com uma simples notificação administrativa, sem necessidade de apuração judicial, contrariando, assim, vários princípios constitucionais, especialmente, o da Liberdade de Expressão. Como a reação contra isso foi também muito forte, o fator Eleições 2010 entrou em cena e, assim, estrategicamente, o Governo Petista-Lulista recuou” 5

Pois bem. Como se vê, a simples afirmação de que o PL visa a estabelecer “princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil” não diz tudo. Na verdade, a ideia de controle permeia todo o projeto. Como as reações a esta tentativa de censura foram e continuam sendo fortes, a ideia inicial foi alterada e o texto do Projeto de Lei, no seu artigo 15, restou estabelecendo que há necessidade de autorização judicial para que o provedor retire o conteúdo da rede. No entanto, agora recentemente, em novembro de 2012, por uma nova manobra do Partido dos Trabalhadores, encabeçada pela Senadora Marta Suplicy, atual Ministra da Cultura, novamente o art. 15 entrou em pauta para ser alterado a fim de contemplar a concepção inicial do projeto do Governo Federal de controlar administrativamente e decidir sobre a censura de conteúdos.6 Por reação da bancada evangélica e de instituições como a ABRANET7 – Associação Brasileira de Internet – houve um recuo. Mas não se sabe ao certo se o texto final do art. 15 não será alterado nos termos em que propôs o Partido dos Trabalhadores.

Algo que depõe contra o Marco Civil regulatório da Internet é que, como se observa da própria justificativa do Projeto de Lei, este é apenas o começo de um processo de regulação – ao nosso sentir, de controle – da internet e dos seus elementos, como é o caso da blogosfera. Diz o Projeto de Lei neste sentido, in verbis:8

“No panorama normativo, o anteprojeto representa um primeiro passo no caminho legislativo, sob a premissa de que uma proposta legislativa transversal e convergente possibilitará um posicionamento futuro mais adequado sobre outros importantes temas relacionados à internet que ainda carecem de harmonização, como a proteção de dados pessoais, o comércio eletrônico, os crimes cibernéticos, o direito autoral, a governança da internet e a regulação da atividade dos centros públicos de acesso à internet, entre outros” (grifos nossos).

Assim, fica clara a intenção governamental de muito mais além de regulamentar o uso da internet, restringir conteúdos que não interessam a ideologia política dominante. Tanto é assim que o Brasil é o primeiro país do mundo a tentar implementar de imediato e com certa urgência esta política regulatória que só agora começa a ser discutida em termos mundiais. 

Neste sentido, recentemente, aconteceu a WCIT 2012 – World Conference on International Telecommunications – de 3 a 14 de dezembro, em Dubai, convocada pela ITU (International Telecommunication Union) – organismo da ONU responsável pelas políticas internacionais na área de telecomunicações – e lá se discutiu o controle mundial da internet. Dentre os 193 membros, participaram ativamente 144 países. Houve uma votação no sentido de se estabelecer, para os próximos anos, um marco regulatório da internet. A maioria dos países, 89, votou a favor da regulamentação e 55 contra. Na tabela que você confere a seguir estão em destaque os que votaram a favor e em branco os que votaram contra: